Expansão marítima e comercial

As 16 datas que mudaram o mundo: 6- O DESCOBRIMENTO DA AMÉRICA

outubro 17, 2008

Pierre Miquel (1930-2007)

Pierre Miquel (1930-2007) – Historiador francês

O antes de 1492 é o infortúnio do mundo mediterrâneo dividido entre o Islã e duas Cristandades antagônicas, irreconciliáveis, a do Oriente e a do Ocidente. É também a miséria e a guerra entre os turcos otomanos e as poderosas nações de religião católica ou ortodoxa.

O depois de 1492 é a entrada para a história do novo continente americano, é o abandono, por parte do grande comércio, do Mediterrâneo entregue às suas lutas intestinas, é a exploração progressiva das fabulosas riquezas do outro lado do Atlântico, o que desloca em direção ao noroeste da Europa os centros de poder.

*****

Mesmo antes de 1453, o império romano e cristão do Oriente encontra-se enfraquecido. O Mediterrâneo é o espaço fechado das lutas mortais entre os muçulmanos turcos, os cristãos ortodoxos do Oriente e os cristãos católicos dos reinos do Ocidente; estes, inicialmente presentes no Oriente com as cruzadas, são em seguida rechaçados por Saladino e, finalmente, pelos turcos, que conquistam Constantinopla em 1453, colocando um fim ao império cristão no Oriente.

As lutas prosseguem ao longo do século XVII entre os Estados cristãos católicos do Ocidente e os turcos. A decadência das cidades mercantis da Itália que comerciavam com o Oriente não pára de se acentuar. Cidades tão prósperas como Gênova e Florença encontram-se ameaçadas.

Dois reinos cristãos, principalmente, travam uma luta contra os turcos. Primeiramente, a Espanha de Juan da Áustria, que vence em 1571, com mais de duzentas galeras, a batalha naval de Lepanto, retomando o controle do Mediterrâneo.

Em seguida a Áustria, que defende o acesso para a Europa pelo rio Danúbio, liberta Viena cercada em 1629, mas não consegue impedir que os turcos continuem os senhores dos Bálcãs, do Danúbio e da Hungria onde eles constroem minaretes e mesquitas.

O Mediterrâneo acusa o permanente fluxo e refluxo das duas potências, sem contar os ataques dos reinos berberes da África do Norte que atrapalham consideravelmente o comércio.

Os reis católicos finalmente compreendem que é necessário encontrar outras rotas marítimas em direção ao oeste para alcançar diretamente as índias, já que a rota pelo Oriente é muito instável.

Os portugueses tentam alcançar as riquezas da índia e da China navegando em direção ao sul, margeando a costa da África. Na Idade Média, o rei Henrique, o Navegador, tinha-os encorajado nesse rumo. Com Vasco da Gama, eles conseguiram contornar o Cabo das Tormentas, dito o da Boa Esperança, e fundaram um entreposto em Goa, nas índias, no golfo de Oman e até mesmo na China, em Macau.

Por uma ironia da história, não é o caminho para as índias, explorado pelos portugueses, que se revela o mais proveitoso, mas a descoberta da América, bem a oeste, por Cristóvão Colombo, em 1492.

O navegador genovês havia lido o Livro das Maravilhas do viajante italiano Marco Pólo, que alcançara a China por via terrestre. Sabendo que a terra era redonda, ele acreditava chegar lá seguindo para o oeste, enfrentando o oceano.

Ele dispunha de um grande trunfo, a caravela. A revolução tecnológica precede e torna possível a conquista. A caravela é um navio de alto bordo, manejável, forte, ágil, de bom e sólido velame.

Depois de ter sofrido a recusa do rei de Portugal e de ter esperado por oito anos a decisão da rainha da Espanha Isabel, a Católica, Colombo conseguiu convencer a soberana sobre a possibilidade de uma viagem de exploração somente pelo oeste. Sabe-se que nos Açores os troncos de árvores trazidos pela correnteza comprovam a presença de terra a oeste.

Colombo se lança ao mar com os dois irmãos Pinzon e com as três caravelas Nina, Pinta e Santa Maria. Elas partem de Paios, na Andaluzia. São dois meses de navegação.

Em 12 de outubro de 1492, grita-se terra à vista do alto do tombadilho. Ouro, pedras preciosas? Nada disso, índios nus, plantas tropicais. Nem pimenta, nem especiarias. Uma viagem a troco de nada? Colombo pensa que está no Japão. Ele está nas Bahamas, depois em São Salvador. Após em Cuba e no Haiti. Ele explora o Mediterrâneo americano, mas não sabe onde exatamente ele se encontra.

Em 1493, uma segunda viagem permite que ele traga para a Espanha 500 índios sobre quem se perguntam se eles são possuidores de uma alma. Os espanhóis decidem convertê-los.

Em 1498, uma terceira viagem. A terra firme é novamente avistada, desta vez na embocadura do Orenoco. Colombo acredita que está na China.

Em 1502 uma quarta viagem, na qual a tripulação descobre a América Central, sem perceber que se trata de um continente. Colombo morre, em 1506, sem saber que descobriu a América à qual um outro navegador, Américo Vespúcio, dará seu nome.

A América é terra de conquista e de exploração. Do Brasil português até a América espanhola, e depois anglo-saxã. Do norte ao sul, os índios (assim chamados porque os territórios descobertos foram batizados de Novas índias) são eliminados pela conquista, pelas doenças trazidas pelos europeus e finalmente pelo trabalho forçado.

Escravos negros são importados da África aos milhares. Os navios negreiros que partem de Nantes ou de Bordeaux vêm trocá-los, acorrentados, nos entrepostos do tráfico do Senegal, do Congo e de toda a costa ocidental pela “pacotilha”, ou seja, por armas e álcool. Esses escravos são vendidos nos mercados do Brasil, da América do Sul e mais tarde nos da América do Norte, quando os fazendeiros de algodão e de tabaco da Virgínia e das Carolinas do Norte e do Sul necessitam de mão-de-obra servil. Os colonos europeus plantam cana-de-açúcar, depois café, cacau, tabaco, chá, algodão. Eles sempre necessitam de escravos. Os produtos vindos da América alimentam a grande indústria da Europa e o comércio internacional.

Com as plantações, as minas. A América é a terra do ouro e da prata. Da prata do Potosi, na Bolívia, até o México; das minas de ouro do Peru, do Brasil, da Califórnia. A prata e o ouro americanos abastecem a Europa desde o século XVI, redistribuídos pela Espanha e por Portugal, permitindo a constituição de Estados poderosos e de uma civilização rica e permitindo também o fortalecimento no norte do continente, a partir da descoberta, em 1848, do ouro da Califórnia, do poderio dos Estados Unidos, independentes desde o fim do século XVIII. O diamante e o ouro do Brasil permitem a esse Estado o desenvolvimento de sua economia e a atração de um forte povoamento europeu.

Na América do Norte as treze colônias britânicas, uma vez “revolucionadas” e descolonizadas, dão nascimento a uma “grande nação”, o mais poderoso Estado do mundo, os Estados Unidos, federados pela declaração de independência da Filadélfia, em 1776. Graças a uma economia agrícola e à abundância de numerário, esse Estado desenvolve uma força industrial e comercial que lhe permite dominar, no fim do século XIX, o continente inteiro.

Terra de escravos e da primeira descolonização. Terra de expansão e de refúgio para a Europa. Os Estados Unidos não tinham necessidade somente de mão-de-obra para garantir o desenvolvimento do sul colonial, mas de milhões de emigrantes europeus para os parques industriais do norte, onde se desenvolviam a siderurgia, a química, a indústria petrolífera. A criação de escolas técnicas inspiradas nos modelos inglês, francês ou alemão garantia a formação de uma mão-de-obra especializada e de pesquisadores: por exemplo, a escola de minas do Brasil, criada por politécnicos vindos da França.

As primeiras ondas de imigração virão da Europa superpovoada da primeira metade do século XIX: irlandeses, ingleses, alemães do oeste e do sul, holandeses e belgas, franceses do oeste ou do sul embarcam em navios de imigrantes para se misturarem no melting pot americano, povoando todas as regiões da União, do leste ao oeste. Mais tarde, as nações eslavas e mediterrâneas — italianos, poloneses, tchecos — substituirão aqueles da primeira leva, até o fechamento das portas da imigração provocado pelas crises econômicas.

Os norte-americanos, para povoar seu território, tinham expulsado os pastores nômades indígenas, que foram massacrados em guerras sem-fim antes de serem fechados em reservas. Uma guerra civil de quatro anos será necessária para que o norte yankee imponha ao sul escravocrata, em 1865, a abolição da escravidão. Mas, durante muito tempo, os negros não terão direitos iguais e deverão lutar para que estes sejam reconhecidos. No Brasil, a escravidão só será abolida em 1888. A América era o primeiro continente descolonizado, mas o que mais longamente foi submetido à vergonha da escravidão.

O povoamento veio de todos os continentes, até mesmo da Ásia. O tráfico de escravos proporcionou a entrada de escravos chineses por Manilha. Coreanos, chineses, japoneses constituíam na costa oeste da Califórnia áreas de desenvolvimento, enquanto que no Brasil os colonos japoneses suplantavam os europeus nas plantações de café. Todos os povos, de todas as raças, misturavam-se nos Estados independentes da América, do norte ao sul. Pois todos atingiam a independência, até mesmo o Canadá arrancado pelos ingleses aos franceses, e mantido por muito tempo como país-membro da Coroa.

A superioridade dos Estados Unidos da América sobre as outras nações colocava-os no centro do desenvolvimento do continente, que dominavam graças ao Canal do Panamá e à construção das grandes estradas de ferro transcontinentais. As primeiras nações conquistadoras, Espanha e Portugal, perdiam seu império e suas possessões, às vezes ao preço de uma guerra como a de Cuba, na qual a marinha americana afundou a frota espanhola. Tornava-se claro, bem antes de 1914, que os Estados Unidos reservavam-se a exploração do continente descoberto por Cristóvão Colombo e que proibiam doravante a entrada aos imperialismos europeus.

A viagem de Colombo não mudou somente a organização das linhas de forças econômicas, demográficas e políticas do continente. Ela transformou a geografia mundial.

Então, a partir de 1492, o Mediterrâneo tornou-se um lago morto, reaberto para o grande comércio somente após a construção do Canal de Suez em 1869.

O Atlântico e, mais tarde, o Pacífico tornaram-se o verdadeiro elo entre os continentes, favorecendo pelo grande comércio a rápida progressão do capitalismo mundial e o desenvolvimento geral por meio de tecnologias revolucionárias e da injeção de capitais.

O verdadeiro caminho do progresso da humanidade é a partir do século XVI rumo ao oeste, através do oceano dominado enfim pelas três caravelas do navegador genovês, a serviço da rainha de Espanha.

 

Pequena Cronologia

 

As descobertas

  • 12 de outubro de 1492: Cristóvão Colombo desembarca em Watling Island, então chamada Guanahani, uma das ilhas do arquipélago das Bahamas. Ele descobre, em seguida, Cuba e São Domingos.
  • 1493-1496: Segunda viagem em direção a S. Domingos, Porto Rico, Jamaica e a outras ilhas do mar das Caraíbas.
  • 1498: Terceira viagem. Descoberta da foz do Orenoco.
  • 1499-1501: Viagens de Américo Vespúcio, que descobre o estuário do Amazonas e a costa brasileira. Ele dá seu nome ao continente.
  • 22 de abril de 1500: Pedro Álvares Cabral descobre o Brasil.
  • 1513: Balboa atravessa o primeiro istmo do Panamá e descobre o oceano Pacífico.
  • 1519: Magalhães atinge a Terra do Fogo e atravessa e estreito que leva seu nome.
  • 1534 e seguintes: O francês Jacques Cartier descobre o Canadá e explora a costa da América do Norte.

As conquistas

  • 7 de junho de 1494: O Tratado de Tordesilhas. O papa divide o espaço da conquista entre portugueses e espanhóis.
  • 1503: Criação, em Sevilha, da Casa de Contratación, espécie de ministério do Comércio criado pelo rei para o desenvolvimento das colônias da América e para sua exploração financeira.
  • 1511: Estabelecimento da primeira diocese católica americana em Porto Rico. Começo da conquista do continente latino-americano por Roma, por meio de seus missionários jesuítas e dominicanos.
  • 1517: Oficialização do comércio de negros, tornado lícito e encorajado pelos poderes ocidentais.
  • 1521: O espanhol Fernando Cortez destrói o império asteca, se apossa do México e ali instala o poder político espanhol.
  • 1532-1536: O conquistador espanhol Pizarro derruba o império inça e instala-se no Peru e no Chile.
  • 1536: O espanhol Pedro de Mendoza funda a cidade de Buenos Aires na desembocadura do rio da Prata. 1545: Descoberta das fabulosas minas de prata de Potosi na Bolívia.
  • 1549: Fundação da cidade de Bahia (Salvador) pelos portugueses. 1565: Criação, pelos portugueses, do Rio de Janeiro. 1567: Fundação de Caracas, na Venezuela, pelos espanhóis. 1607: Fundação de Jamestown, primeira colônia britânica instalada na Virgínia, por John Smith.
  • 1608: Fundação da cidade de Quebec pelo francês Champlain. 1620: Viagem do Mayflower e fundação de Massachusetts pelos puritanos.
  • 1625: Criação, pelos holandeses, da Nova Amsterdã (que se tornará Nova York).
  • 1642: Fundação de Montreal pelos franceses do Canadá. 1682: Conquista da Luisiana pelo francês Cavelier de La Salle. De 1629 a 1733: Formação das treze colônias americanas. De 1689 a 1763: Guerras marítimas e coloniais na América pela hegemonia do continente, que passa para a Inglaterra após a derrota da França.
  • 4 de julho de 1776: Declaração da independência dos Estados Unidos da América.
  • 1783: Pelo Tratado de Paris, que coloca um fim à guerra da independência na qual os franceses ajudaram os americanos rebeldes, a Inglaterra reconhece essa independência. 1800-1803: Os franceses vendem a Luisiana para os Estados Unidos.
  • 1819: A Flórida é cedida pela Espanha aos americanos. 1816-1825: Os libertadores livram a América Latina da colonização espanhola. O mais ilustre é Simon Bolívar. 1823: A doutrina de Monroe. O presidente dos Estados Unidos, Monroe, reivindica perante a Europa o controle do continente americano por seus habitantes. Ele recusa-se a intervir nos assuntos europeus.
  • 1846: Conquista das províncias mexicanas do sul pelos Estados Unidos. 1820-1880: Conquista do oeste.
  • 1861-1865: Guerra da Secessão e abolição da escravidão em 1865.
  • 1867: Compra do Alasca dos russos.
  • 1869: Abertura da primeira estrada de ferro transcontinental. 1898: Anexação de Porto Rico e protetorado sobre Cuba no fim da guerra contra a Espanha. Anexação das Filipinas e política de presença armada na América Central, de acordo com a doutrina imperialista do presidente Theodore Roosevelt. 1914: Abertura do Canal do Panamá. Os Estados Unidos tornam-se a primeira potência industrial do mundo.

 

Fonte: http://historiablog.wordpress.com/?s=expans%C3%A3o+mar%C3%ADtima   Acesso: 18/03/2013

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s